sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O reencontro

Minha antiga professora de português estava sentada no banco da praça, despercebida, espiando o sobe e desce das ruas. Fiquei surpreso quando a avistei. Parei. Cautelosamente, dirigi-lhe a palavra, evitando assustá-la, sem esperar que me reconhecesse repentinamente, afinal a última vez que nos vimos foi há mais de três décadas.
 
Boa tarde, professora. Foi assim que iniciei a conversa. Ela me olhou com espanto, querendo saber quem era aquele estranho. Depois, atendeu-me com a simpatia de sempre, lábios encarnados, tal como nos anos em que assistia às suas aulas no Colégio Estadual. Identifiquei-me. Contei-lhe que fora seu aluno e que, quase todos os dias, no início da tarde, a esperava naquela praça. (Era com ela que eu seguia de carona até a escola, economizando o dinheiro da condução para comprar os livros da coleção Para Gostar de Ler, recheada com crônicas de Braga, Sabino, Veríssimo e Drummond.) Falei-lhe do fusca verde-abacate, bem conservado, que ela cuidadosamente conduzia. Ela me interrompeu, lembrando que possuíra três fuscas: um era azul; o outro, bege; o último foi esse aí, que você andou.
 
Na mesma hora, senti a fragrância marcante do seu perfume invadindo aquele carro, nos envolvendo nesta ambiência misteriosa dos aromas. Era o mesmo bálsamo que Vovó usava. Lentamente, as histórias chegavam num turbilhão de sensações e emoções. Lembrei-me de Daninha, minha tia-avó, que zelosamente, na Semana da Pátria, colocava duas fitas, uma verde e outra amarela, no bolso da minha farda caqui. Revi o diretor do Estadual tecendo explicações sobre a história do Brasil, no pátio da escola, antes da execução dos hinos Nacional e da Independência. Ouvi o eco distante do som da minha inseparável flauta doce, que levava todos os dias para animar os colegas na hora do recreio. Recordei, com toda a intensidade daquele instante, o dia no qual a professora me pediu para ler, em voz alta e na frente da turma, a fábula O caracol e a pitanga, de Millôr Fernandes, que narra a história de um caracol que deseja alcançar o cume da pitangueira, mas é desencorajado por uma formiga-maluca, “dessas que vão e vêm mais rápidas que um coelho de desenho animado”.
 
Certamente, naquele breve reencontro, ela também vasculhou fatos entre as sombras das suas memórias, quase todas perdidas no lusco-fusco do tempo. Reticências. Uma janela, ao longe, abriu-se e fechou-se. A minha velha mestra continua alegre, elegante, tranquila. Passa o tempo naquele não-lugar, observando o mundo, embaixo dos arvoredos enrugados e escurecidos que um dia me abrigaram. Percebendo a urgência dos meus gestos e a inquietação dos meus filhos, despediu-se sorrindo, feliz, parafraseando Millôr: Vá indo, sem pressa. Quando chegar lá em cima, quem sabe, vai ser tempo de pitanga.
 
Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

Um comentário:

Aluizio Guimarães disse...

Que belas imagens! Sua crônica daria um curta! Parabéns!

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