segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aquarela

No início dos anos oitenta, a paisagem do entorno do Açude Novo foi completamente alterada com a urbanização da Rua das Imbiras, dos Coqueiros de Zé Rodrigues e a construção do Parque do Povo. A inauguração do Centro Cultural, no coração da cidade, possibilitou o acesso de inúmeros jovens ao mundo da arte e da literatura, sobretudo com a instalação da Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira (FACMA) naquele complexo educacional.

Os cursos oferecidos pela FACMA eram muito concorridos. A clientela que, por exemplo, participava das aulas de redação, recebendo a orientação de Angelina Duarte, Graças Reis e Thelma Cartaxo, era formada principalmente por alunos das escolas públicas estaduais. Foi ali, naquele espaço onde hoje funciona a sala de dança, que tive, pela primeira vez, contato com a obra de grandes escritores da nossa literatura. Nos encontros semanais, líamos e estudávamos materiais diversos, que usávamos como base para a construção de novos textos e poemas. Quando nos debruçávamos sobre o rico corpus da música popular brasileira, analisando as canções de Chico, Milton e Tom, também cantávamos, a cappella e/ou acompanhados por um violão, vivenciando um intenso processo intersemiótico.

Certo dia, quando estávamos dissecando a canção Aquarela, àquela época mais um sucesso da dupla Toquinho e Vinicius, alguém me convidou para ingressar no Facmadrigal, o coro da Fundação. Devo confessar que fui para o ensaio sem muitas pretensões. No entanto, quando ouvi o grupo, fui seduzido pela magia e pelo mistério da polifonia vocal. Senti que todo o meu ser ansiava por aquele momento há bastante tempo. Ingressei no naipe dos tenores e lentamente me vi envolvido naquela trama física, afetiva, sonora, espiritual. Interpretávamos de tudo, incluindo música sacra e popular, que o maestro Sérgio Telles arranjava com muito zelo, pensando no conjunto de cantores e amigos.

O Facmadrigal foi minha primeira escola. Os anos que passei por lá foram muito importantes, pois adquiri valores que foram essenciais para a minha trajetória. Lembro-me que, durante um ensaio, num momento de descontração, comecei a brincar, balançando os braços em todas as direções, tentando imitar o maestro, regendo uma das peças do nosso repertório. Os meus gestos burlescos, além de provocarem o riso dos colegas, chamaram a atenção do regente, que, à distância e escondido, me observava e, depois de olhar atentamente aquela encenação, me nomeou seu assistente. Desde então, e à semelhança do que ocorrera com o bairro São José, tudo mudou. Passei a viver entre a alternância e a permanência, a ruptura e a conciliação, o singular e o plural, o medo e a ousadia, trilhando caminhos, construindo pontes, ouvindo vozes, pintando paisagens luminosas, transparentes e suaves como as matizes de uma aquarela que, tenho certeza, jamais descolorirá.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

2 comentários:

O canto lírico disse...

O poder da palavra profética! Ou seria dos gestos?

Trycia disse...

Texto maravilhoso que nos permite fechar os olhos e de fato estar naquela época. Divulgando site e texto no twitter, os mortais merecem!!! rs

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