segunda-feira, 1 de março de 2010

Quem não quiser ver, não espie!

Maria Cândida do Nascimento e Maria Cândida do Nascimento eram irmãs, filhas de Seu Severiano. Nasceram no Sítio Quebra Pé, lá pras bandas de Esperança, brejo paraibano. Até hoje ninguém sabe por qual razão as duas receberam o mesmo nome. O certo é que a mais velha, apelidada de Tia Inocência, era sanguínea, e a mais nova, conhecida como Tia Pureza, era melancólica. Cresceram sob a vigilância cerrada do pai, homem reservado e de pouca conversa.

Tia Inocência, apesar do descontentamento, entendia o cuidado excessivo do Velho, sempre preocupado com os misteriosos ataques dos lobisomens, que nas noites de lua uivavam e assaltavam as donzelas, deixando em seus corpos o cheiro repugnante da sangria dos porcos. Acredita-se que foi por este motivo que o comércio dos suínos foi extinto do mercado central, afetando drasticamente a economia da região.

Durante a Quaresma, o povo do Sítio Quebra Pé tradicionalmente, além de jejuar e andar descalço, descia a Serra toda sexta-feira a fim de acompanhar a via-sacra, na igreja matriz. E naquela Sexta-Feira da Paixão não foi diferente. Entretanto, quando regressavam da igreja, ouviram, ao longe, um barulho estranho, vindo do meio do matagal. Intrigados, pararam na tentativa de identificar o que estava provocando aquele ruído, cada vez mais próximo e assustador. De repente, Tia Inocência e Tia Pureza, que além do nome compartilhavam medos e aflições, concluíram que no meio daquela mata, àquela hora da noite e em plena Sexta-Feira Santa só podia ser o lobisomem. Por isso, começaram a gritar, “É o lobisomem! É o lobisomem!” A correria foi geral. “O medo foi tão grande que todo mundo saiu desembestado, escapando de qualquer jeito, para todo lado, em toda direção”, descreveu Tia Pureza. “Só pai, meu filho, ficou com o cachimbo e um pedaço de pau na mão, atocaiando aquela besta-fera”, completou Tia Inocência.

No outro dia, todos souberam que aquele vulto magro e alto que fora visto correndo na mata, na noite anterior, não se tratava do famigerado lobisomem. Era, na verdade, Antônio Caxias, que, por conta da cachaça, havia caído sobre uma moita de avelós e urtiga. Desesperado, e tentando livrar-se da coceira e da queimação na pele, despiu-se, saindo em disparada rumo ao boqueirão que havia perto da vazante. Nu e bêbado, porém precavido, gritava, “Quem não quiser ver, não espie!” Todos entenderam o episódio e, desde então, Tia Inocência e Tia Pureza não quiseram mais saber de homem, não comeram carne de porco e fecharam portas e janelas para não ver o brilho da lua nem ouvir o canto da noite, os uivos, gemidos e grunhidos dos cães, gatos e amantes.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

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