segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Radiola de cabaré

Honorato do Canto Fino recebeu este nome em homenagem à Fazenda Liberdade, local onde nasceu, nos arredores de Assú, interior do Rio Grande do Norte. Cresceu naquele pedaço de mundo devastado pela seca, cultivando o sisal, planta resistente à aridez da região Oeste Potiguar. Trabalhava na lavoura e andava solto pelo extenso Vale repleto de carnaubais, explorando a beleza da Chapada do Palheiro e os mistérios das grutas e cavernas da Lagoa do Piató, em cujas águas mergulhava para aliviar-se do cansaço dos dias ensolarados.

Na época das festas religiosas, Honorato entoava com fervor o hino do glorioso São João Batista, na igreja matriz de Assú. Ao término das celebrações, divertia-se nas barracas da quermesse, montadas ao lado da capela, onde as panelas também ferviam, exalando um cheiro quente e forte. Caminhando pelo entorno da praça, ele observava o contraste entre o céu escuro, os casarões coloniais e as pequenas casas conjugadas, todas adornadas com rodapés coloridos. Enquanto andava, ouvia os recados dos casais apaixonados, anunciados através dos alto-falantes da difusora. O movimento pendular dos brinquedos, no parque montado na rua central, indicava-lhe o passar do tempo, a dinâmica da vida.

Naquelas noites de festa, Honorato também gostava de visitar o Chão de Estrelas, o velho e decadente cabaré que, no passado, fora freqüentado por gente de todo o Cariri, Sertão, Seridó e até das bandas do litoral. Foi lá que ele conheceu Angelita, a prostituta mais cobiçada de toda a região e com quem manteve um caso amoroso por muitos anos. Contam, inclusive, sem muita certeza, que do relacionamento entre Honorato e Angelita nasceram Zumira, Cidinha, Gerusa e Dôra, que seguiram a profissão da mãe, razão pela qual aquela região de meretrício passou a ser conhecida como o entroncamento das Quatro Bocas, tanto por conta das vielas que ali se encontravam quanto por conta das filhas da puta. Honorato era respeitado no bordel por ser, digamos assim, o amante oficial da grande dama e por causa da provável paternidade das meninas. Quando adentrava o recinto, era cumprimentado por todos, dirigia-se para o bar e comprava as fichas da radiola, pois gostava de Núbia Lafayette, a célebre assuense, que, àquela época, já era nacionalmente conhecida.

Honorato caducou lentamente. Sozinho, quase cego e surdo, passava o dia deitado, fino, num canto, sintonizado na Rádio Princesa do Vale. Certa noite, Angelita foi entrevistada no programa Radiola de cabaré. Ao comentar sobre as filhas e o Chão de Estrelas, mencionou que conhecera o amor através de Honorato, homem de honra, para quem dedicou suas canções prediletas: Escuta, Amor sincero. Fica comigo esta noite, À maneira antiga. Afinal... Alguém me disse, A saudade mata a gente.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

4 comentários:

RANGEL JUNIOR disse...

Parabéns, Vladimir! Sensibilidade e percepção aguçada, nas memórias (re)vividas, no olhar sobre a paisagem, na observação do comportamento, na orientação aos alunos... na discussão sobre a música e a regência.
isso é que é regência, "caba véi"!
Meu abraço.

Anônimo disse...

Que coisa mais linda! Você e Thúlio têm uma percepção de nossas raízes como se estivesse estaso lá.

Marcilene

Marcília disse...

Vlads, meu maestro, para toda a vida....Assim, é Assu, belo como você escreveu, forte assim, vívido assim, como só nós conseguimos viver, e como (de forma muito pertinente Cilene colocou), so você e o velho Thúlio (que também já nos desccreveu certa feita), os poetas paraibanos que eu mais amo, conseguem perceber e escrever...e quiçá cantar o nosso Assu velho....Um beijo agradecido, um abraço apertado.

Anônimo disse...

Amigo Vladimir, belas recordações vividas à luz de Assu. Pena que vc não conhece o beco das 4 bocas. Foi lá onde conheci Maria do riacho. Puta afamada... Amiga de honorato. Com muita honra me deflorou pela primeira vez(Expressão por mim ouvida pela primeira vez de Meu eterno e inesquecível finado avô Lauro Vieira). Foi assim: " Quanto tem aí, minino?". E eu tremendo de prazer: " 189...!!!!". E ela reticente: "É, fazê o quê!!! Vá colocando a grana aí dentro do bule enquanto me lavo. Seja rápido que tem 2 prás 4 horas da tarde".E lá fui eu... foi a grande amiga de Honorato que me presenteou no beco das 4 bocas com uma tarde de prazer.
É isso aí, Vladimir. Parabéns pelas memórias do meu povo...
do colega
Marcelo (Mano de Marcília)

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