segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Liberdade controlada

Fiz o curso primário no Instituto São Vicente de Paula, localizado no Catolé, no entorno do Açude Velho. Gostava muito daquela escola, especialmente por conta da área aberta ao redor da gameleira, na qual desenvolvíamos atividades recreativas, e do jardim, sempre florido com monsenhores, margaridas e samambaias cuidadosamente cultivadas por Zezinho, o anão sisudo que trabalhava na escola há várias décadas. O prédio inspirava certo ar de mistério por conta da arquitetura e por causa dos corredores escuros. Eu e meus amigos discutíamos porque não podíamos entrar em determinadas salas, o que haveria de tão importante ali que as crianças não podiam ver e para onde nos levaria aquela enorme escada, construída sobre a porta principal da escola, através da qual Irmã Ângela Beleza, a madre superiora, subia e descia majestosamente.

Na hora da entrada, as professoras e freiras nos acolhiam, organizando os alunos por séries. Quando estávamos enfileirados, Irmã Ivete, a temível, passava em revista, para ter certeza que estávamos com o fardamento completo. Às vezes, parava e dizia: “– Por favor, mostre-me as meias. Quero ver se são brancas e se estão limpas.” Noutras ocasiões, chamava a atenção das meninas, que deveriam usar a saia cinza plissada abaixo do joelho. Semanalmente, cantávamos o hino nacional brasileiro e o da escola, assim como a canção que nos ensinava que “sempre fica um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas.”

Tão logo o sino tocava, saíamos da sala apressados e seguíamos em direção ao pátio, onde, na hora do recreio, meninos e meninas ficavam em lados separados. Podíamos comer a merenda oferecida pelo colégio, que, às vezes, incluía mingau cremoso ou um saboroso cuscuz com leite. Se tivéssemos dinheiro, podíamos comprar os bolinhos de banana com canela preparados por Irmã Catarina, a responsável pela cantina, que eram macios e deliciosos. Durante o intervalo, Irmã Ivete brincava com as meninas e cantava músicas do cancioneiro infantil, enquanto os meninos corriam soltos.

Certo dia, derrubei, acidentalmente, durante o intervalo, um dos enormes tambores de lixo que dividiam os dois lados do pátio. O mundo parou, e eu ouvi aquela longa e grave exclamação que acompanha as cenas trágicas, assim como o silêncio sepulcral que precedia as duras lições de Irmã Ivete. Assustado, escutei-a cabisbaixo. Por conta daquele incidente, fomos proibidos de correr. Como a vigilância foi duplicada, (re) inventamos jogos, (re) descobrimos o prazer da criação, transgredindo limites, observando restrições. Lembro-me que nos deleitávamos brincando de pega-pega, porque, ao invés de correr, agora andávamos depressa, quase correndo. Para sintetizar a experiência, recorro a Stravinsky que, ao falar da criação, no livro Poética Musical, comenta: “quanto mais a arte (vida, grifo nosso) é controlada, limitada, trabalhada, mais ela é livre.”

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

2 comentários:

Aniele disse...

Uma reflexão muito boa e engraçada ao mesmo tempo kkk as dificuldades da vida nos ensina a recriar nossa maneira de viver e não desanimar com qualquer obstaculo!!!abraço!

Anônimo disse...

Para quem estudou em colégios católicos, o contato com friras e padres era muitas vezes tradicional, mas não podemos negar o carinho e cuidados como tratam os estudantes. Também fui aluna de colégio católico e com suas memórias lembrei-me das minhas. Tenho saudades de um escola em que as valiosas horas de recreio, com brincadeiras "vigiadas" eram suporte do nosso conhecimento. Tenha uma boa semana, prof. Vladimir. Carla Teresa(THE-PI)

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