segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A essência do brejo

Visitamos o brejo paraibano recentemente e fomos seduzidos pela beleza daquela região. Iniciamos o passeio por Lagoa Seca, contemplando a simplicidade da capela dos Maristas e do Convento Ipuarana. Depois, continuando a subida, chegamos a Esperança e ao Sítio Quebra Pé, onde Jane e Joana costumavam ouvir as histórias de Vovô Fulóro. No topo da Serra, atravessamos Arara e Remígio e, ao passarmos em Solânea, cruzamos o Santuário do Padre Ibiapina, líder religioso que atuou no Nordeste durante o século XIX. Paramos em Bananeiras.

Bananeiras, cidade acolhedora, tem clima ameno. Por conta do relevo irregular, as ruas são sinuosas, destacando a formosura do patrimônio arquitetônico parcialmente conservado, que apresenta construções seculares. A antiga estação e o túnel, através do qual o trem passava carregando a cana-de-açúcar e o café, embelezam o topo da colina de onde se vê toda a cidade. O conjunto do Sagrado Coração de Jesus se destaca na paisagem com cores fortes e vibrantes. No alto, a histórica Igreja de Nossa Senhora do Livramento, palco dos nossos futuros concertos, impõe-se majestosa, revelando a força da fé e a religiosidade daquele povo.

Saímos de Bananeiras com destino à Cachoeira do Roncador. Na descida da Serra, o céu cinzento e o cromatismo esverdeado, produzido pelos bananais, alimentavam nossas esperanças e alegrias. Paramos encantados em Pirpirituba para contemplar novamente a simplicidade da vida, revelada no vai-e-vem das gentes, nas formas da igreja matriz, toda pintada em azul celeste. Adentramos numa estrada de chão batido e a cada curva éramos surpreendidos com as paisagens ou com o temor repentino que naturalmente nos invade quando trilhamos caminhos desconhecidos. Saciamos nossa fome num pequeno restaurante saboreando uma suculenta galinha de capoeira com feijão verde, arroz e farinha. Alimentados, caminhamos para a cachoeira. Lá, nos banhamos e refrescamos o corpo, a mente e o espírito, ouvindo o ronco das águas na corredeira e da chuva torrencial que caía.

Na volta, por conta da estrada estreita e lamacenta, tivemos que acompanhar o cortejo fúnebre de um morador das redondezas. Superamos esta fase dolorosa lentamente e, em pouco tempo, alcançamos a estrada, seguindo novo rumo, em direção à Borborema, onde visitamos casarões e engenhos antigos. Aprendemos muito sobre a nossa história e adentramos no universo do escritor José Lins do Rêgo, seus enredos, cenários e personagens. Lembrei-me, também, do compositor Reginaldo Carvalho, que nasceu e viveu parte da sua infância por ali. Imaginei-o menino, brincando e correndo naquelas terras, captando, através das cantigas dos trabalhadores do roçado e das lavadeiras nas beiras do rio, a essência do Nordeste e da Paraíba que, como ele mesmo me confessou em entrevista há alguns anos, perfuma a sua obra.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

3 comentários:

Anônimo disse...

Com este texto, me senti convidado a também viajar...

PARABÉNS!!!!!

Anônimo disse...

Ótima ideia levar música de boa qualidade para a cidade de Bananeiras. As cidades do interior da Paraíba são muito carentes de cultura e arte, mas tenho certeza que a receptividade será a melhor possível, pois o povo, por mais simples que seja, sabe apreciar o que é bom. E não se engane, é um público exigente.

Adivinhe! disse...

Ochente! E por que é que não foi a Guarabira? Medo de OVNI, é? Sabe-se que por lá aparecem mais do que em qualquer outro lugar do Brasil, o pessoal de lá já está é canso de tanto ver esses bichinh' perambulando pelo céu, em todas as direções: para cima e bara baixo, para um lado e para o outro, para a frente e para trás, em diagonal de tudo o que é jeito, em círculo e espiral... de qualquer jeito, afinal, de manhã, de tarde e de noite, pode-se ver do meio da rua, da janela de casa, ou sentado em cadeiras na calçada, à noitinha, se confundindo com as milhares de estrelas cadentes... Ficou com medo, foi? De ser carregado sem querer para uma dessas viagens esquisitas que não se sabe ao certo se se volta ou nçao se volta e, se voltar, volta diferente?... Tenha coragem, não deixe de visitar Guarabira, uma cidade encantadora!

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