terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Querubina e a vaca braba

Querubina nasceu em Arara, brejo paraibano. Mudou-se para Campina Grande e veio morar na Rua das Imbiras, num pequeno quarto anexo à minha casa. Sempre estava por perto e, em virtude da proximidade, era considerada parte da nossa família. A sua vida não era fácil, já que passava o dia catando e coletando latas pelas ruas do São José. Além dos problemas físicos, trazia, na alma, muitas desventuras, a mais trágica, certamente, o fato de não saber o paradeiro dos dois filhos, separados há mais de trinta anos. As esperanças do reencontro pareciam remotas até o dia em que ficamos sabendo que Campina Grande participaria do programa Cidade contra Cidade, uma competição televisiva apresentada por Sílvio Santos, no final da década de setenta.

A Rainha da Borborema ficou em polvorosa com a notícia. A população queria saber quais seriam as diversas provas da gincana e como seria o processo de preparação, afinal era preciso participar e, quem sabe, ganhar aquele jogo. Dentre as muitas provas, havia uma que consistia em promover o reencontro entre pessoas que estavam separadas há muito tempo. Vários casos foram apresentados, incluindo o de Querubina, que foi o escolhido.

A viagem mais longa que ela havia feito em toda a vida foi entre sua terra natal e Campina, que estão separadas por aproximadamente cinqüenta quilômetros. Agora, o desafio era maior, pois teria que viajar de avião e para um lugar longe e desconhecido. Ajudamos na preparação, fizemos um planejamento e, dias depois, ela apareceu na televisão em rede nacional. Ficamos felizes e envaidecidos ao vê-la tão bonita e alegre naquele programa. Tudo estava saindo conforme o planejado até o momento em que o apresentador lhe pediu para dizer, o mais rápido possível, a expressão “abracadabra”. Querubina, na sua ingenuidade brejeira, repetiu “a vaca é braba”. O riso foi geral e só cessou quando vimos que a sua missão estava completa e que, finalmente, ela havia reencontrado os dois filhos.

Ao retornar para Campina, todos a cumprimentavam e sorriam, lembrando da história da vaca. Querubina logo voltou ao anonimato, retomou a rotina e passou a caminhar pelas ruas do bairro. À noite, quando apagávamos as luzes e nos deitávamos, ela despertava e ligava o rádio de pilha. Como um anjo querubim a nos velar, ela estava por trás daquela parede, olhos e ouvidos abertos. Eu adormecia embalado pela música da madrugada e pelo murmurinho das folhas da goiabeira, que balançavam com o vento gelado. Enquanto isso, Querubina abria e fechava as latas que arrecadara na sua jornada diária e nas quais, suponho, guardava, secretamente, os meus sonhos, assegurando-me que eles ficariam, assim como os seus filhos, ali e para sempre.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

5 comentários:

Dayana disse...

Essa história eu não conhecia... mais uma para ficar na história! Bom registro!

RANGEL JUNIOR disse...

Maravilha a braba vaca e suas viagens musicais pela goiabeira. Essas coisas nos forjam deixando marcas eternas. Afinal, sua totalidade de hoje foi perenizada por todas essas experiências fantásticas. O olhar astuto e o ouvido atento fizeram sua parte. Grande abraço!

Frederico Marroquim disse...

Abracadabra! e as portas se abrem para um músico escritor cuja sensibilidade aflora em textos simples e expressivos. Continue, caro Vladimir, a nos presentear com sua erudição e humanidade. Abraços.

Bianca disse...

Que 'otima historia!!! Amei!! Voce realmente 'e um poeta...parabens!

Bianca disse...

Você ë muito bom, Vladimir!

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