sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Por uma poética das possibilidades

O maior desafio do educador, na era da educação mercantilista, é manter-se fiel aos seus princípios. Perante o conflito ideal versus real, é preciso encontrar o equilíbrio necessário entre ceder o possível sem, contudo, perder de vista a meta almejada. A nossa missão é difícil; a nossa responsabilidade, enorme; a nossa ação, imprescindível. As opções que fizermos agora serão projetadas a curto, médio e longo prazo e contribuirão para definir a realidade econômica, social, política e cultural do nosso país.

O espaço da Música na escola é fundamental para o processo de construção da cidadania. Logo, é um equívoco atribuir-lhe uma função tão-somente transversal e secundária dentro do currículo, considerando-a como um auxílio para outras disciplinas. Música é uma área com conteúdos específicos e é preciso inseri-los e trabalhá-los no contexto educacional de forma sistemática e metódica. Por esta razão, o professor de Música não deve assumir funções que não lhe sejam pertinentes. O nosso compromisso é, sobretudo, com o intrínseco, com aquilo que é da própria Música. Uma grande conquista, neste sentido, foi a promulgação da Lei 11.769, de 18/08/2008, que regulamenta a obrigatoriedade da educação musical no ensino fundamental e médio de todo o país. Agora, precisamos fazer valer a lei e discutir as diretrizes curriculares.

Faz-se necessário ensinar Música e Arte porque o mundo continua e continuará precisando de compositores, músicos, ouvintes críticos, regentes, pintores, escultores, dançarinos, fotógrafos, cineastas, diretores. Nossos corpos e mentes precisam viajar pelo universo do som e do silêncio; da cor, da forma e das texturas; do movimento e da ação; dos sonhos, da utopia, da emoção e da imaginação. Lembram de Lupicínio Rodrigues com a canção Felicidade? “O pensamento parece uma coisa à-toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar.” Talvez ele quisesse dizer e como é que a gente voa, quando começa a cantar, a tocar, a ouvir, a compor, a dançar, a pintar, a representar. Nossos limites se alargam quando aliamos à imaginação o poder criativo e expressivo da Arte.

Diante dos desafios que vivenciamos, não podemos deixar o barco à deriva e abandonar o destino dos nossos alunos, sejam eles da escola privada ou pública. Os conflitos devem servir para reforçar os nossos ideais, a necessidade de democratizar o acesso e o consumo da Música. Este processo é lento e, como Guimarães Rosa nos fala no conto A terceira margem do rio, “é no devagar depressa do tempo que as coisas vão mudando.” Sejamos perseverantes, então. Portanto, que a nossa fé não esmoreça; que os nossos sonhos sejam sempre renovados; que os nossos horizontes sejam sempre expandidos; que a possibilidade de dias melhores seja nosso alimento, a nossa poética cotidiana.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

4 comentários:

Dayana disse...

Um mundo mais musical seria, no mínino, mais prazeroso.

Lucia Figueiredo disse...

Oi Vladimir!
Que bom que tem gente que pensa assim como você com relação à música!
Concordo e acredito que ainda temos muito o que lutar para conseguir fazer a música ser reconhecida como deve!

Abs

Lúcia

Silmar Oliveira disse...

Vladimir, parabéns.
Belo texto.
Repassei para várias pessoas.

Abraços e ótimo 2010.

http://3.ly/sBe

João Mario Sales da Silva disse...

Amigo, texto comprometido, engajado. Parabéns!!!

Postar um comentário