segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Obrigado, Dona Nuca.

Minha avó materna, Maria Luiza, era conhecida como Dona Nuca. Morava no bairro do São José, na Rua das Imbiras. Era alegre e gostava de conversar. Sempre que estava cozinhando ou passando roupas, cantarolava fragmentos de canções com sua voz suave e aguda. Aos sábados, assistia ao programa Almoço com as estrelas, apresentado por Ayrton e Lolita Rodrigues, na extinta TV Tupi. Conhecia todas as músicas e opinava sobre o desempenho dos intérpretes. Era categórica: esse é bom; este, não. Quando reunia os filhos, meus tios e tias ficavam na cozinha, ao redor da mesa, comendo, bebendo, sorrindo e discutindo sobre os mais variados temas. Ela era a mediadora. Primos e primas brincavam e dançavam embalados pelos sucessos que tocavam na velha vitrola da sala. Dona Nuca sempre vinha dançar conosco. A música nos unificava.

Minha avó era devota de Nossa Senhora, razão pela qual rezava o terço durante o mês de maio. Ao concluir a trezena, organizava uma procissão para lembrar a aparição de Fátima. Era ela quem preparava tudo. Passava o dia limpando e enfeitando a casa, colocando vasos e flores no altar, coberto com uma toalha branca de renda. À noite, a casa ficava cheia, repleta de familiares e vizinhos. Rezávamos o terço e saíamos caminhando em procissão, cantando vários hinos marianos, muitos dos quais, tenho certeza, jamais esquecerei. Três crianças representavam os pastores de Portugal. O cortejo era grande e as velas, nas lanternas artesanais que ela confeccionava, iluminavam a noite estrelada de maio. Ao término, recebíamos pipocas, doces e outras guloseimas, um justo prêmio pela missão cumprida.

No mês de junho, época das grandes festas, minha avó decorava a rua com bandeirolas e balões. Os pequenos fogos de artifício exerciam grande fascínio sobre todos nós. Na noite de São João, acendíamos as fogueiras e dançávamos quadrilha. Pamonha, canjica, bolo de milho e tantas outras delícias nos aqueciam na Serra naquelas noites frias. Anos mais tarde, quando institucionalizaram o Maior São João do Mundo e construíram o Parque do Povo, minha avó parou de realizar festas em sua casa, preferindo ver os shows e espetáculos que eram apresentados naquela área de lazer.

Dona Nuca lutou contra uma doença incurável. Definhou gradualmente sem perder, no entanto, a altivez, a força, a graça, a música. Uma semana antes de partir, disse que recebera a visita de Nossa Senhora, que, em sonho, havia anunciado que era chegado o momento. Neste dia, cantou um dos seus hinos prediletos e falou pela última vez. No Dia Internacional da Mulher, retirou-se serenamente. Na mesma noite, subi ao palco para uma apresentação. Antes de começar, fechei os olhos e silenciosamente dediquei-lhe aquele concerto, agradecendo-lhe por ter me ensinado, com simplicidade, a alegria e os prazeres da vida e da música.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

4 comentários:

João Valter disse...

Vladimir

De todos os textos que li em seu blog o que mais me agradou foi este, de Dona Nuca. Não que deixe de concordar com todos os outros... como você sabe, sou um dos mais assumidos representantes da era e mesmo do estilo vladimiriano de se pensar e fazer música.

Mas nas palavras que escreveu sobre sua avó, aflorou (com a clareza e a objetividade de sempre) a porção não-técnica da matéria prima necessária a todo ser humano, mas, de maneira especial, aos artistas: a sensibilidade.

Parabéns a você por ter tido uma avó assim!Congratulações a Dona Nuca por ter tido um neto assim!

Posso até imaginar a simpática velhinha confortavelmente sentada em sua nuvenzinha branco-acinzentada, conferindo seu blog no laptop de Santa Cecília (ou no de J. S. Bach, por exemplo) e chamando a Fatinha (no céu o grau de intimidade é outro) para dar uma olhada em seu texto...

E que você, caro amigo, sempre faça uso da coragem e do vigor com os quais rege seus corais naquela mesma luta que foi a de sua avó até o fim!

Afinal de contas, expectativa do reencontro com aqueles que sempre amamos é uma das mais belas motivações para buscarmos, nós também, as coisas do alto.

Sempre com admiração

João VAlter

Anônimo disse...

Olá meu primo padrinho.
gostei muito de ler como descreveu vovó nuca,e a cada palavra lida, a lembrança de minha vó, sempre presente e que tanto amei, hoje guardo na lembrança todos seus ensinamentos e consigo ver traços de sua personalidade em meu pai e que também herdei e que sem dulvida nenhuma só me fez crescer na vida.

ao ler seu texto fiquei emocionado
parabéns ..
abração.

Estêvão Rafael

Anônimo disse...

Acabei de ler seu maravilhoso texto, que me levou a sentir ate o cheiro das comidas que ela preparava e o corre corre de primos que ficava na cozinha, eu particularmente querendo que o loro falasse sem parar (rs)e esperando a hora de degustar o maravilhoso pudim feito por tia Luizinha (o melhor de toda mnha vida!!).
Parabéns pelo texto, e obrigado por ter me feito relembrar épocas maravilhosas!!!

Beijos,

Trycia Andrezza.

Anônimo disse...

Apesar de não me lembrar de todas essas histórias, foi muito delicioso escutar você descrever nossa querida AVÓ... A parte que me recordo bem era do dim-dim dela, dos fogos que ela vendia e de sua fogueira que até hoje meu pai mantém a tradição da família. E acho bastante importante reviver tudo que ela deixou de especial para nós e para outros que viram que foi a rigidez com bastante vontade de ser feliz...
Borges eu sou sim!
Abraços...


Arthur Francisco Emanuel BORGES Pereira

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