terça-feira, 24 de novembro de 2009

A goiabeira

Morei toda a minha infância na Rua das Imbiras, perto da casa da minha avó, Dona Nuca. Foi lá que, aos treze anos, descobri a música. Lembro, como se fosse hoje, o dia em que minha irmã chegou da escola com a sua flauta doce. Estava animada com a novidade. Aproveitei a ocasião e, impulsionado pela curiosidade, também comecei a brincar, descobrindo, lentamente, como tocar as músicas que conhecia e gostava. Não sabia o nome das notas. Apenas explorava as possibilidades que o instrumento me oferecia e o meu ouvido permitia captar. A flauta tornou-se a minha paixão, a minha companheira inseparável. Levava-a para a escola diariamente e, nas horas vagas, mostrava meu repertório para os colegas. Todos gostavam de ouvir.

Também tocava freqüentemente na minha pequena casa, sobretudo depois de concluir as tarefas escolares. Como não tínhamos muitos cômodos, às vezes meus irmãos me pediam para tocar mais fraco ou até mesmo parar de ensaiar enquanto eles assistiam aos seus filmes e programas prediletos. Para evitar maiores problemas e já cansado daquele falatório, tive que procurar outro local para praticar despreocupadamente.

Nosso quintal era enorme. Tínhamos muito espaço para correr e brincar. As árvores e plantas nos protegiam do sol. À esquerda, as canas-de-açúcar, com suas hastes inteiras, balançavam, contrastando com a imobilidade das pequenas e multicoloridas pitangueiras. Ao fundo, a gravioleira e a mangueira, com seus galhos enormes e enrugados, abrigavam frutos e cupins. No centro daquela área viva estava a frondosa goiabeira.

Percebi que aquela admirável árvore poderia ser o meu refúgio. Resolvi galgá-la. Inicialmente, fiquei assustado por conta da altura do arbusto, mas, pouco a pouco, fui adquirindo destreza, dominando o medo, passando a subir cada vez mais rápido. Quando chegava ao cume, lá, no último galho, e encontrava um lugar seguro para sentar, respirava fundo e contemplava o horizonte. Ali, ninguém iria me pedir para silenciar. Estava longe, bem acima do chão, e minha casa, agora, era menor do que eu imaginava. Daquele ponto, avistava a torre da igreja, as palmeiras imperiais às margens do velho açude e a chaminé do curtume, predizendo que o meu vínculo com a música seria tão denso e perene quanto aquela fumaça esbranquiçada que vagarosamente se espalhava no céu alaranjado da Serra. Habituei-me a tocar todos os dias no finalzinho da tarde, no topo da goiabeira, pois gostava de ver o sol esmorecendo e a lua chegando. Adorava tocar na penumbra, no meio das folhagens, perto do céu. Meu maior prazer era sentir que o som da flauta, doce como o aroma das goiabas, invadia, misteriosamente, a noite, a minha casa, a vizinhança, todo o meu ser.

Vladimir Silva (silvladimir@gmail.com)

5 comentários:

Dayana disse...

Um belo capítulo para uma bela biografia! :) Parabéns pelo texto e pela riqueza com que utiliza os adjetivos!

Aniele disse...

Bom saber como foi seu encontro com a musica professor!!Nós que temos esse dom devemos fazer da melhor forma possível pois muitos gostariam de estar no nosso lugar e poder expressar a arte da musica!É sensacional...
abraço!ANIELE

Marta disse...

Parabéns!
Este fato me fez lembrar minha infância, onde subíamos em uma goiabeira em nossa casa em Tabira/PE para estudar as matérias decorativas para as provas e depois brincar, cantarolar.

Anônimo disse...

Que lindo esse seu começo musical com a flauta! Agora compreendo melhor o seu intenso envolvimento com a música e o temor que um dia possa ter sentido ao pensar que tivesse de abandoná-la para seguir outro caminho que não fosse o da música.
Continuo torcendo por você.
Um grande abraço,
Luceni Caetano.

O canto lírico disse...

Essa história eu ja, sabia mas como foi descrita ficou sensacional!

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